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16 abril 2012

Cara inimiga


Cara minha inimiga, em cuja mão
Pôs meus contentamentos a ventura,
Faltou-te a ti na terra sepultura,
Por que me falte a mim consolação.

Eternamente as águas lograrão
A tua peregrina formosura:
Mas enquanto me a mim a vida dura,
Sempre viva em minha alma te acharão.

E, se meus rudos versos podem tanto,
Que possam prometer-te longa história
Daquele amor tão puro e verdadeiro,
Celebrada serás sempre em meu canto:
Porque, enquanto no mundo houver memória,
Será a minha escritura o teu letreiro.

Luís de Camões

15 março 2012

Não o saiba toda a gente

"A dor que que a minha alma sente, 
Não na sabe toda a gente.

Que estranho caso de Amor!
Que desejado tormento!
Que venho a ser avarento 
Das dores de minha dor!
Se se sabe, ou se se sente, 
Não na digo a toda a gente.

Minha dor e causa dela
De ninguém ouso fiar;
Que seria aventurar
A perder-me ou a perdê-la.
E pois só com padecê-la,
A minha alma está contente,
Não quero que o saiba a gente.

Ande no peito escondida, 
Dentro na alma sepultada;
De mi só seja chorada,
De ninguém seja sentida.
Ou me mate ou me dê vida,
Ou viva triste ou contente,
Não ma saiba toda a gente."

Redondilhas 
Luís de Camões